Prof. Pai Ronie de Ogum Onire Adiokô
Babalorixá no Ilê Orixá Ogum Adioko e Oya Tofã, Licenciado em Matemática pela Uniasselvi (2013), Pós-Graduado em Especialização em Mídias na Educação, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (2015), Pós-Graduado em Especialização em História e Cultura Afro pela Uniasselvi (2015).

Fundamento religioso

 

“Para descobrir um novo mundo, é preciso saber esquecer seu próprio mundo, do
contrário, o pesquisador estará simplesmente transportando seu mundo consigo ao
invés de manter-se ‘à escuta’”.
(Hampaté Bâ)

Muito se discute o que efetivamente é fundamento dentro do batuque do Rio Grande do Sul, para alguns o fundamento está ligado a tradição de sua família religiosa (gôa), sendo o correto o que os mais antigos fizeram. Não existe problema algum sobre isso, pois de fato o que seus ancestrais realizavam é o alicerce deste terreiro, desta tradição, mas não se pode chamar isso de fundamento, ao querer demonstrar que é a única forma correta. Se isso fosse verdade existiria uma única forma de fazer santo, uma única forma de servir um orixá. E a feitura está ligada a nação de origem, a forma que nossos ancestrais faziam nossos santos. O que muitos chamam de fundamento é na verdade tradição, a tradição da casa, a tradição que é seguida, a tradição de uma ou de outra feitura.

Feituras estas que se diferenciam de acordo com o aprendizado de quem inicia, da origem do terreiro, e também da conduta diária frente o sagrado, pois de acordo com nossa conduta mais próximos ou mais distantes ficamos frente ao sagrado e desta maneira temos maiores ou menores condições de preparar novos iniciados.

O fundamento está ligado aos princípios da tradição religiosa que devem ser tratados com cuidado, podemos dizer que são a base necessária da religião para que esta continue sendo pertencente a uma tradição religiosa, sobretudo as religiões de matriz africana não estão fundamentadas em livros sagrados, e por isso muitas vezes são objetos de especulação e mudanças na forma básica de se cultuar, mas de maneira nenhuma isso a diminui ou a faz ter menor ou maior importância. As religiões africanas variam sua forma de cultuar de acordo também com a cultura da região onde está estabelecida.

Seguir esta tradição é também cultuar o ancestral, é valorizar o que os mais antigos fizeram. Estar ainda de acordo com estes preceitos também é estar amparado pelo axé, pois os orixás e ancestrais desta ou daquela tradição foram feitos de cordo com esta tradição, com este fundamento.

Fundamento não é apenas fazer o que os mais antigos faziam, fundamento é fazer o correto, é fazer da forma que o orixá quer que seja feito, com , amor e verdade. Uma casa que tem fundamento é uma casa onde se faz religião tendo o orixá como objetivo principal, sem levar em consideração interesses pessoais. Existe mais de uma forma de fazer religião, várias tradições e fundamentos.

Ninguém é dono de uma tradição, de um fundamento ou de uma nação, pois é ser muito prepotente em pensar que somos os detentores de um conhecimento. Não se pode esquecer que a maior parte do que se aprende na religião de matriz africana é transmitido pela oralidade, e que nem todos conseguem transmitir o conhecimento aprendido para seus iniciados, ficando desta maneira aprendizagens perdidas. Desta forma que garantia se tem que a tradição de um terreiro é a correta e a de outro está errada? Como se sabe quem está correto? Por que sempre foi assim?

E se nossa religião está sustentada pelo convívio direto com o sagrado, sabe-se que se aprende todos os dias dentro de um terreiro, com os mais antigos, com os mais novos e principalmente com nossos Orixás. E de forma nenhuma se pode dizer que sempre os antigos estão corretos, tempo de religião, deve ser respeitado, o indivíduo velho deve ser igualmente respeitado, mas de nenhuma maneira o tempo dentro de um terreiro efetivamente se reproduz em conhecimento aplicado ou aprendido, pois isso depende principalmente da conduta correta e dedicação para além de saber fazer e ver fazer, realmente fazer. Não basta saber fazer se muitas vezes o conhecimento não for colocado em prática.

É necessário que exista mais união entre todos de tradição africana, enquanto as religiões pentecostais se unem a tradição africana, essencialmente no Rio Grande do Sul cria barreiras, pela vaidade, por ser o detentor de um conhecimento ou ainda apenas para justificar o que se faz, isso não é de maneira nenhuma fundamento.

REFERÊNCIA

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A Tradição viva. História geral da África. Editado por Joseph Ki-Zerbo. – 2. Ed. Ver. – Brasília : UNESCO, 2010, p. 167-212.

Veja também:

Axé para cortar aos ancestrais / Oficina sobre nação dos orixás / O que são os Orixás / Olodumare

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Publicado em 04/11/2015

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